ARAKAN

O Arhat

Arakan é uma representação sonora de arhan ou arhat, palavra do sânscrito que significa pessoa digna de veneração. Arakan é também o último estágio alcançado por um śrāvaka, um budista diligente. O śrāvaka é parte do budismo Hīnayāna, e por isso os budistas Mahāyānas geralmente desprezam o arakan. Mestre Dogen não compartilhava dessa opinião. De acordo com ele, não pode haver diferença entre os budismos Hīnayāna e Mahāyāna. Mestre Dogen acreditava que só existe um budismo, transmitido a nós pelo Buda Gautama, e que a diferença entre o budismo Mahāyāna e o budismo Hīnayāna foi produzida por circunstâncias de diferentes eras. Por isso, não devemos afirmar a existência de mais de um budismo. A partir desse ponto de vista, ele explicou o valor absoluto do arhat neste capítulo.

Todos os excessos completamente exauridos; sem dificuldades; controlado; realizando todos os laços da existência; mentalmente livre.[1] Este é o grande estado de arakan, o efeito final de quem estuda Buda, chamado de quarto efeito,[2] buda-arakan. Todos os excessos são uma concha de madeira quebrada e sem cabo:[3] já foi usada por longas eras, mas sua exaustão completa é a aparição súbita do corpo inteiro da concha. Controle é entrar e sair do cérebro. Realização de todos os laços da existência é o Universo inteiro nas dez direções nunca ocultado. Nós investigamos a forma e o grau de liberação da mente como “lugares altos naturalmente equilibrados por serem altos e lugares baixos naturalmente equilibrados por serem baixos”[4] – base sobre a qual cercas, paredes, telhas e seixos existem. O significado de livre é a mente como manifestação de todas as funções. Sem dificuldades significa que as dificuldades ainda não apareceram, que dificuldades são limitadas por dificuldades. Os poderes místicos de um arakan, assim como sua sabedoria, estado equilibrado de dhyāna, sua pregação do Darma, instrução, radiância da sua claridade etc. nunca devem ser comparados àqueles discutidos por não budistas, demônios celestiais e similares. Doutrinas como o poder [do arakan] de ver centenas de Mundos-Buda[5] não devem ser jamais associadas com as visões e opiniões da pessoa comum. O princípio aqui é, ao dizer que a barba de um estrangeiro é vermelha, também é fato que todo barba-vermelha é um estrangeiro[6]. Entrar em Nirvana para um arakan é a conduta de entrar numa mão fechada. Por isso [a conduta de um arakan] é a mente maravilhosa de Nirvana e também o lugar de onde não se escapa. Arakans que adentraram as próprias narinas são verdadeiros arakans. Aqueles que nunca saíram de suas narinas nem entraram nelas não são arakans.

            Desde há muito se diz: “Agora nós realmente somos arakans, e fazemos com que todos ouçam a voz da verdade de Buda”.[7]

            A questão desse “fazer com que todos ouçam” é transformar todos os darmas na voz de Buda. Como seria possível [“todos”] referir-se apenas aos budas e seus discípulos? Todos os seres que têm consciência, que têm inteligência, pele, ossos e medula: fazer com que esses ouçam é o que significa “fazer com que todos”. “Aquele ou aquela que tem consciência e inteligência” significa território nacional, grama e árvores, cercas e paredes, telhas e seixos. Ascender e cair, florescer e apodrecer, viver e morrer, ir e vir: tudo isso ouve. [Mas] a base do fazer com que todos ouçam a voz da verdade de Buda não é simplesmente estudar o mundo inteiro como um ouvido.[8]

            Xaquiamuni Buda disse: “Se algum dos meus discípulos, ao se proclamarem arakans ou pratiekabudas, não ouvirem ou reconhecerem o fato de que os budas-tatagatas ensinam somente os bodisatvas, eles não são discípulos de Buda, nem arakans, nem pratiekabudas”.[9]

            O ensinar somente bodisatvas, como na fala de Buda, significa: “Somente eu, e os budas nas dez direções, podemos saber disso.”[10] Somente budas, com budas, são direta e perfeitamente capazes de realizar que todos os darmas são forma,[11] são anokutara san myako san bodai.[12] Em sendo assim, a autoavaliação[13] de bodisatvas ou budas deve ser idêntica à de [arakans e pratiekabudas] chamando a si mesmos de arakans e pratiekabudas. Por quê? Porque avaliar a si mesmo [verdadeiramente] é apenas ouvir e saber o fato de que budas-tatagatas ensinam somente bodisatvas.

            Desde há muito se diz: “Nos sutras dos śrāvakas, arakan é o nome dado ao estado de Buda”.[14]

As palavras aqui proferidas são a verificação da verdade de Buda; não são meras especulações de corações sentimentais feitas por professores-comentaristas; elas contêm o padrão universal do budismo. Nós precisamos aprender na prática o princípio de chamar o estado de Buda de arakan, e precisamos aprender também na prática o princípio de chamar o arakan de estado de Buda. Para além do efeito de arakan nada permanece, nem um único átomo, nem um único excesso de darma – a verdade de anokutara san myaku san bodai poderia permanecer menos? Além da verdade de anokutara san myaku san bodai, novamente nada permanece, nem um único átomo, nem um único excesso de darma – os quatro processos e os quatro efeitos[15] poderiam permanecer menos? No exato momento em que os arakans estão carregando todos os darmas em seus ombros, esses darmas na verdade não são nem “500 gramas” nem “meio quilo”.[16] Eles estão além da mente concreta, além do estado concreto de Buda e além das coisas concretas. Nem mesmo os olhos de Buda podem vê-los. E não precisamos sequer discutir os 8 mil kalpas passados ou futuros. Temos de aprender na prática a habilidade de arrancar o Olho. Se qualquer coisa é excesso, todo o Darma é excesso.

            Xaquiamuni Buda disse: “Se esses bikkus e bikkunis dizem a si mesmos ‘Eu já alcancei o estado de arakan; esta é a minha última vida, nirvana final’, e por isso não desejam nem procuram anokutara san myako san bodai, saiba que essas pessoas são altamente arrogantes. Por quê? [Porque] é impossível um bikku realmente atingir o estado de arakan sem acreditar nesse ensinamento”.[17]

            Essas palavras certificam: alguém que tenha a capacidade de acreditar em anokutara san myako san bodai é um arakan. Com toda a certeza, acreditar nesse ensinamento[18] é pertencer a esse ensinamento, é receber a transmissão face a face desse ensinamento, e também praticar e experimentar esse ensinamento. Alcançar realmente o estado de arakan está além [da compreensão de que] “esta é a minha última vida, nirvana final” porque [alcançar realmente esse estado] é desejar e procurar anokutara san myako san bodai. Desejar e procurar anokutara san myako san bodai é brincar com o Olho; é sentar-se voltado para a parede[19]; é estar de face para a parede[20] e abrir o Olho. É o mundo inteiro inclusivamente; e ao mesmo tempo são deuses aparecendo, demônios desaparecendo.[21] É a totalidade do tempo inclusivamente, e também são [arakans] se jogando reciprocamente no instante.[22] Isso é “desejar e procurar anokutara san myako san bodai”, e é, por isso mesmo, desejar e procurar o estado de arakan. Desejar e procurar o estado de arakan é estar satisfeito com seu mingau [N. do. T.: mingau de arroz é a refeição matinal nos mosteiros] e estar satisfeito com seu arroz.[23]

O mestre zen Engo[24], da montanha Kassan, disse: “Após atingirem a essência, os antigos penetraram as profundezas das montanhas e viveram por dez ou 20 anos em cabanas de palha e espinheiro, à base de arroz cozido em caldeirões quebrados de três pernas. Eles esqueceram completamente o mundo humano e se despediram para sempre de circunstâncias empoeiradas. Hoje em dia, eu não desejo isso, desejo apenas ocultar meu nome, cobrir meus rastros e me manter firme na minha tarefa inicial; me tornar um velho monge, como uma broca rígida e ossuda e que está naturalmente de acordo com o estado experimentado [pelo Buda]; receber e usar esse estado de acordo com minhas próprias habilidades; deixar meu carma passado derreter e me adaptar aos costumes praticados desde há muito. Se eu possuir energia de sobra, ofereço aos outros, estabelecendo condições para prajñā, e assim nós treinaremos nossos próprios pés e pernas até a perfeição. Como se estivéssemos na natureza, lapidando um indivíduo verdadeiro ou meio: juntos nós conheceremos a existência e juntos vamos nos livrar da vida e da morte, criando mais e mais benefícios para o futuro, e assim recompensando a benevolência profunda dos Budas ancestrais. Se não é possível impedir o gelo e o orvalho de amadurecer as frutas, e se através de meu esforço contínuo eu estou manifesto no mundo[25], eu me harmonizo com as circunstâncias, eu me abro e cultivo seres humanos e deuses, mas nunca colocarei minha mente a serviço de proveito próprio. Menos ainda eu dependerei do poder da nobreza, me tornando um professor obsequioso e vulgar cujo comportamento engana a pessoa comum e desafia os santos, que persegue vantagens e forja a própria fama, produzindo o carma do [inferno] incessante.[26] Por mais que me faltem os meios e as condições, se eu puder simplesmente passar pelo mundo assim, e não acumular efeitos cármicos, será que posso ser um verdadeiro arakan que transcende a poeira?”.[27]

            Assim, um monge genuíno aqui e agora é um verdadeiro arakan que transcende a poeira. Se queremos conhecer a natureza e a forma de um arakan, nós deveríamos conhecê-las assim. Se está deludido, não leve em conta as palavras dos eruditos dos Paraísos do Oeste. O mestre zen Engo, das terras do leste, é um dos ancestrais do Darma, sucessor legítimo da verdadeira transmissão.

            O mestre zen Daichi[28], da montanha de Hyakujo-zan, em Koshu[29], disse: “Olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo, mente: nenhum deles cobiça ou é manchado pelas coisas substanciais e fenômenos imateriais. Esse estado é chamado ‘receber e preservar um verso de quatro linhas’, e também é chamado ‘o quarto efeito’”.

            A total perfeição aqui e agora de olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente que está além do eu e do outro é incomensurável. Por isso, o corpo inteiro está naturalmente além da cobiça e das manchas. Na completude de todas as coisas substanciais e fenômenos imateriais, [o corpo inteiro] está além da cobiça e das manchas. A completude naturalmente completa de receber e preservar um verso de quatro linhas é chamado além da cobiça e das manchas. Esse estado é também conhecido como “o quarto efeito”, e o quarto efeito é arakan. Assim, olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo, mente que são realizados aqui e agora são exatamente o estado de arakan. Se mantivermos o básico e reverenciarmos os detalhes, esse estado é naturalmente transparente e livre. Alcançar um obstáculo sólido pela primeira vez é receber e preservar um verso de quatro linhas, que é o quarto efeito. Ir direto ao topo e direto ao fundo, o todo realizado, e nem mesmo o menor resíduo existe. E, finalmente, se queremos expressá-lo, como expressá-lo? Podemos dizer: quando os arakans estão no estado profano, são incomodados por todas as coisas e fenômenos, e quando os arakans estão no estado sagrado, todas as coisas e fenômenos os libertam. [Por isso] nós devemos saber que arakans e todas as coisas e fenômenos estão no mesmo estado. Se experimentamos o estado de arakan uma vez, estamos limitados por ele. Assim, desde antes do Rei [do Kalpa] do Vazio[30], o [arakan] tem sido um velho punho fechado.

Shobogenzo Arakan 

Transmitido para a assembleia no 15o dia do 5o mês lunar no verão do 3o ano de Ninji[31], enquanto residindo no templo de Kannon-dori-kosho-horin-ji, no distrito de Uji, em Yoshu.[32]

 

Traduzido por Genzo (André Spinola e Castro)

[1] Parte do início do Sutra de Lótus, Jo (Introdutório), LS 1.8: “Assim eu ouvi. Em certa ocasião, o Buda estava vivendo em Rajagrha. No Monte Grdhrakuta, ele estava com 12 mil grandes bhiksus. Eles eram todos arhats, de excessos exauridos, sem dificuldades, controlados, realizando todos os laços da existência e mentalmente livres.”

[2] No budismo Hīnayāna, diz-se que o śrāvaka passa por quatro estágios ou efeitos. Em sânscrito, o primeiro deles é srotāpanna (entrar no fluxo), o segundo é sakdrāgāmin (ser obrigado a retornar somente mais uma vez), o terceiro é anāgāmin (não ser obrigado a retornar), e o quarto é arhat.

[3] Simboliza um velho monge.

[4] Referências às palavras de mestre Kyozan Ejaku, citado no Shinji-shobogenzo, pt.1, no 23. Na versão do Shinji-shobogenzo, a palavra “naturalmente” (自, onozuka[ra]) é omitida.

[5] Daichido-ron diz: “Os olhos místicos de um arakan veem apenas mil mundos, os olhos místicos de um pratiekabuda veem 100 mil mundos, os olhos místicos de um Buda veem todas as Terras-Buda”.

[6] As palavras de mestre Hyakujo Eikai, citadas, por exemplo, no cap. 76, Dai Shugyo. Neste contexto, a citação quer dizer que um arakan tem poderes místicos, sabedoria etc. e que aquele que possui poderes místicos, sabedoria etc. é um arakan.

[7] Sutra da Flor de Lótus, Shinge (Crença e Compreensão). LS 1.260: “Agora somos / realmente ouvintes da voz / A voz da verdade de Buda / Nós fazemos com que todos ouçam. / Agora nós somos / realmente arakans”.

[8] A base da prática-e-experiência budista.

[9] Sutra da Flor de Lótus, Hoben (Meios Expedientes). Ver LS 1.98-100.

[10] Sutra da Flor de Lótus, Hoben. Ver LS 1.70. Ver também Shobogenzo, cap. 60, Juppo.

[11] Ibid. Ver LS 1.68. Ver também Shobogenzo cap. 50, Shoho-jisso, e cap. 91, Yui-butsu-yo-butsu.

[12] 事 (JI, koto) significa “fato” ou “matéria”. No Sutra da Flor de Lótus, o caracter é usado de modo casual [reconhecer o fato de = reconhecer]. Mas Mestre Dogen escolheu o caracter para enfatizar que o ensinamento de Buda é a realização dos fatos.

[13] 自? (JI-I), traduzido do Sutra da Flor de Lótus como “chamando a si mesmos…”? (I) significa chamar ou considerar. Os mesmos caracteres自? (JI-I), traduzidos como “pensando para si mesmos”, aparecem no parágrafo [91].

[14] Maka-Shikan, cap. 3.

[15] 四向四果 (SHIKO-SHIKA) se refere aos quatro efeitos: srotāpanna, sakrdāgāmin, anāgāmin e arakan, e aos quatro processos que levam a eles.

[16] No original, “eight ounces” e “half a pound”, ou “oito onças” e “meia libra”. Optamos por outras medidas para expressar o mesmo conceito. [N. do T.: literalmente, oito 両 (RYO) ou meio 斤 (KIN). Oito 両 (RYO) e meio 斤 (KIN) expressam o mesmo peso. Um 斤 (KIN) é aproximadamente 1 libra (ou 600 gramas).]

[17] Essa citação do Sutra da Flor de Lótus vem logo após a citação no parágrafo [87] deste capítulo. Ver LS 1.98-100.

[18] ?? (SHIHO) significa “este ensinamento”ou “este darma” ou “realidade concreta”.

[19] 壁面 (HEKIMEN).

[20] 面壁 (MENPEKI). Mestre Dogen inverteu os caracteres para sugerir a relação mútua entre parede e praticante, praticante e parede.

[21] 神出鬼没 (SHINSHUTSU-KIBOTSU), “deuses aparecem, demônios desaparecem”, descreve acontecimentos inesperados e aleatórios. A frase aparece em um verso de mestre Engo Kokugon, citado no capítulo 23, Gyobutsu-yuigi.

[22] 互換投機 (GOKAN-TOKI). Essa frase também aparece no verso de mestre Engo Kokugon.

[23] Monges na China e no Japão no tempo de Mestre Dogen faziam duas refeições por dia. Mingau no café da manhã e arroz no almoço.

[24] Mestre Engo Kokugon (1063-1135), sucessor do mestre Goso Ho-en. Ele recebeu o título de mestre zen Bukka do imperador Kiso, da dinastia Sung, e o título de mestre zen Engo, do imperador Koso, da dinastia Sung do Sul. Seu título póstumo é mestre zen Shinkaku. Mestre Engo editou o Heki-gan-roku (Anais do Penhasco Azul), baseado na coleção de poemas e histórias de mestre Seccho Juken.

[25] 出世 (SHUSSE), neste caso, significa tornar-se o mestre de um grande templo. Tornar-se o mestre de um grande templo não era o objetivo de mestre Engo, mas ele reconhecia que essa era uma consequência natural de seus esforços como monge.

[26] 無?? (MUGENGO). ?? (MUGEN), “incessante”, representa o sânscrito Avīci, o nome de um inferno em particular.

[27] Engo-zenji-goroku, capítulo 14.

[28] Mestre Hyakujo Ekai (749-814), sucessor do mestre Baso Do-itsu. Seguindo as instruções do mestre Baso, ele ensinou em Nanko, onde viveu no Monte Hyakujo. Mestre zen Daichi é seu título póstumo.

[29] Hoje em dia, província de Jiangxi.

[30] 空王 (KU-O), Rei do Vazio, é o nome do lendário primeiro Buda, que apareceu no Kalpa do Vazio. Mestre Dogen usa a frase 空王以前 (KU-O-IZEN), “desde antes do Rei do Vazio”, para descrever algo que tem valor eterno.

[31] 1242.

[32] Hoje em dia, corresponde ao município de Kyoto.

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